antes mesmo de abrir os olhos sinto o cheiro seco de terra rachada. as dores, já tão familiares para o corpo, não me atingem mais. sou toda um só sofrimento que me transpassa. não tenho tempo para me perder dentro de mim. ouço, ao longe, vozes que me pertencem, e como por instinto acordo para lutar por elas. enfrentar um sol diferente daquele que reflete belezas. aqui o sol é meu sugador de vida. ele faz o tempo deixar suas marcas na minha pele sofrida. o cheiro de terra é imediatamente substituido pelo fedor ardente nas narinas defeituosas de todos que abrem suas portas, e a realidade nos invade abruptamente. aves negras comem do que como, até que um de nós seja o próprio alimento. olho ao redor e o que vejo me impede de acreditar que exista um mundo melhor. não tenho mais sonhos e esse é meu mais íntimo segredo. mais um dia de labuta intensa e não suporto. volto a mim. não posso mais ficar presa a isso. o medo de não conseguir me libertar me trouxe de volta. talvez eu estivesse mesmo lá e não tivesse chance de fuga. talvez a essência da minha existência se resumisse a sofrer. mais do que chorar algumas horas por eles, talvez eu fosse um deles. eu, que tanto morro, preferiria qualquer outra a tal dor. e é por isso que sou feliz. sou feliz também quando sofro. quando me agridem, quando me machucam. porque o que sinto jamais seria tão cortante quanto essa dor desconhecida. uma dor sem escolhas. fico exangue ao chegar dessa viagem. ouço cada batimento do meu coração agitado. as contrações quase o partem, se não fossem seguidas do relaxamento. tenho a impressão de que não sou mais quem era e esse momento é tão único que não existe.
preciso de um gole d’agua e do descanso eterno.
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