quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

alguém sem nome.


esconderijo de sempre - pés fincados na areia, sal ardendo na boca, pupilas dilatadas. o mar lamberia minhas coxas, e ela viria. me abraçaria pelas costas e diria baixinho no meu ouvido: cheguei. ela saberia que se não atrasasse demais, eu esperaria a minha vida toda. não quereria tê-la de frente, com medo de perdê-la só pelo atrevimento de querer ter visto. a partir de então, eu não sentiria o tempo passar. faríamos, eu e o tempo, um acordo de coexistência pacífica, somente enquanto não usássemos o relógio. com ela, se dormiria com os pés pra fora do cobertor. eu, a garota das implosões complexas; eu, escrava de mim mesma me libertaria. mesmo que inconscientemente tomada, sentiria como agora os djavu’s de vidas passadas. então, daríamos as mãos, e riríamos. às vezes, me ligaria no desespero da madrugada porque sentira que era tarde, ou cedo demais, e já se passara muito tempo... e contornando pensamentos confusos terminasse por resumir que todas as voltas que tivesse dado consistiam na sua maneira receosa de dizer o quanto precisa de mim. me olharia como se eu fosse a mulher mais linda do mundo, e me beijaria a cada instante com a intensidade, ritmo, e calor em perfeita sintonia com o momento. teria um ciúmes só de bem-me-quer, e uma liberdade infinita que me prendesse antes de dormir num abismal minuto. preencheríamos cada segundo da presença mútua, e por vezes, secreta sem sequer precisar utilizar aquelas três palavrinhas... já tão inteiramente fatigadas. dormiríamos juntas e ela me revelaria inteira, sabendo-me entendida e apreciada em cada pequeno detalhe. ou apenas nos entrelaçaríamos, nos completaríamos como conchas, e entre nós só haveria espaço para a tal da reciprocidade. me beijaria o pescoço e amansaria meu cabelo revolto... e eu, então, a olharia e tudo teria sido dito.

nas noites insones - me amaria, e amaria, e amaria... mesmo sem citar a palavra amor. porque ela, como nenhum outro alguém, entenderia que o amor só pode ser sentido. é como segredo... que se revelado, perde completamente o sentido de existir.  

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

(...)

a ausência é...
































tudo o que falta aqui.

sobre o seu toque.

suavemente, traça um caminho incerto sob minha pele que agora queima com seu toque delicado. conheço as mãos que me definem, que vão me descobrindo num pecado sútil de amantes desesperados. basta um toque, e meus lábios procuram o seus com desejo ardente. deixo de ser eu para te ser inteira. já agora sou minha própria vontade de te amar por inteiro, devorando vorazmente cada pedaço seu. sinto queimar todo meu oxigênio nesse prazer incontrolável. é a loucura que me percorre e vai, aos poucos, rompendo meus laços com a realidade, me fazendo acreditar nos sonhos escritos de tantos livros, repetidos nas noites insones. é esse calor que suas mãos emanam. mãos macias que brincam pela minha pele e que, de súbito, me prendem e me arrastam impetuosamente pra perto de outro corpo quente, imediatamente reconhecido pelos meus sentidos. são corpos que se pertencem, estes que agora se entrelaçam e fervilham sentimentos. a doçura da sua respiração me embriaga e me obriga a senti-la cada vez mais perto. e é no encontro das nossas bocas que minhas perguntas são todas respondidas. e é sempre num movimento lento que me faz perder todo o fôlego. um sussuro quebra o total frenesi em que me encontro pra me lembrar do motivo de estar alí. eu te amo, você me diz. não resisto a sua voz chamuscando vontades tão reciprocas. me agarro aos seus cabelos desfeitos, e paro um intante pra olhar no fogaréu que crepita do seu olhar, percebo então nossa nudez entregue. vejo uma forma de mulher, e reconheço nela a metade de mim. seios pequeninos e levemente arrebitados. o cabelo caí em cachos se distribuindo pela sua pele perfeitamente macia. na pouca luz ambiente só percebo que aqueles olhos avelã se entregavam pra mim, e imploravam que eu possuisse seu corpo tanto quanto já possuia sua alma...

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

uma dor de alma.

antes mesmo de abrir os olhos sinto o cheiro seco de terra rachada. as dores, já tão familiares para o corpo, não me atingem mais. sou toda um só sofrimento que me transpassa. não tenho tempo para me perder dentro de mim. ouço, ao longe, vozes que me pertencem, e como por instinto acordo para lutar por elas. enfrentar um sol diferente daquele que reflete belezas. aqui o sol é meu sugador de vida. ele faz o tempo deixar suas marcas na minha pele sofrida. o cheiro de terra é imediatamente substituido pelo fedor ardente nas narinas defeituosas de todos que abrem suas portas, e a realidade nos invade abruptamente. aves negras comem do que como, até que um de nós seja o próprio alimento. olho ao redor e o que vejo me impede de acreditar que exista um mundo melhor. não tenho mais sonhos e esse é meu mais íntimo segredo. mais um dia de labuta intensa e não suporto. volto a mim. não posso mais ficar presa a isso. o medo de não conseguir me libertar me trouxe de volta. talvez eu estivesse mesmo lá e não tivesse chance de fuga. talvez a essência da minha existência se resumisse a sofrer. mais do que chorar algumas horas por eles, talvez eu fosse um deles. eu, que tanto morro, preferiria qualquer outra a tal dor. e é por isso que sou feliz. sou feliz também quando sofro. quando me agridem, quando me machucam. porque o que sinto jamais seria tão cortante quanto essa dor desconhecida. uma dor sem escolhas. fico exangue ao chegar dessa viagem. ouço cada batimento do meu coração agitado. as contrações quase o partem, se não fossem seguidas do relaxamento. tenho a impressão de que não sou mais quem era e esse momento é tão único que não existe.

preciso de um gole d’agua e do descanso eterno.