Sempre me vi dessa forma: fragmentária. E o "todo" pra mim era o mundo. Depois entendi que era fragmentária de mim mesma também - nunca conheci tudo que existe dentro do meu nome. E um nome não passa do rótulo que te colocam já quando nasce. Viemos ao mundo pra sermos tipificados - foi isso que levei alguns anos pra entender. Senti ódio, sim. E foi de uma única palavra: sociedade. Nunca quis pertencer a ela. Então a vida, sábia, me levou a lugares diferentes nos últimos tempos. Conheci novos cheiros, saboreei singulares momentos, provei peculiares sabores. Tudo que conseguia ver, no entanto, desde que tenho minha primeira lembrança, era o céu. Me apeguei a ele tresloucadamente, me refiz e desfiz várias e várias vezes aos seus olhos, duvidei do corpo que mantinha essa alma (viva, quente, suja) pousada em terra. Quis desvairadamente não ter que me render - ainda que eu soubesse que não se tratava de uma simples escolha. Era o mundo, já tardio, me fagocitando. Eram seus braços carinhosos buscando me acolher, querendo me ninar no embalo de seu agito frenético e eu gritava pelas noites insones e estreladas...
Silêncio.
Fechei meus olhos cansados, por fim, e cedi forças ao escuro que me engolia com a fome dos desesperados.